Edifício em construção na avenida Rebouças, na zona oeste da capital paulista (Foto: Eduardo Knapp/ Folhapress)
Mesmo que a economia brasileira cresça 2,7% neste ano, como projetado pelo governo e por parte do mercado, o país deve ter um desempenho ligeiramente abaixo da média mundial e ainda aquém do ritmo verificado nas quatro últimas décadas. Dados e projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial também mostram que o Brasil cresceu abaixo da média global nos governos Dilma Rousseff e Michel Temer (2011-2018) e que vai repetir essa tendência na gestão Jair Bolsonaro (PL).
Os dados contradizem a avaliação do governo de que a economia brasileira está decolando, diagnóstico que não é compartilhado pela maior parte do setor privado. O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil nos dois primeiros trimestres do ano e a melhora nas expectativas para 2022 têm sido comemorados pelo governo, que promoveu uma injeção de dinheiro para tentar reduzir os índices de rejeição ao atual presidente, candidato à reeleição.
Ao comentar o resultado do segundo trimestre, o Ministério da Economia argumentou que o país cresceu mais que os países do G7 (grupo que reúne EUA, Canadá, Japão, França, Reino Unido, Alemanha e Itália), considerada a taxa anualizada do primeiro semestre. O ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que o Brasil também cresce mais que a China, que teve contração do PIB no período, mas deverá ter desempenho melhor no acumulado de 2022.
De 2020 a 2022, nos três anos marcados pela pandemia, o Brasil não irá superar o desempenho econômico mundial. É o que mostram tanto dados já divulgados como projeções para este ano. O Brasil deve ter um crescimento médio de 1,1% ao ano nesse período, segundo levantamento do economista Bráulio Borges, pesquisador associado do FGV Ibre, com dados do Banco Mundial. O crescimento médio global deve ficar em 1,8% ao ano. Para 2023, a projeção é de crescimento de 0,5% no Brasil, segundo a pesquisa Focus, e de 2,3% para o mundo feito pela instituição multilateral.
Analisando o período, ele afirma que o Brasil adotou um pacote fiscal de resposta à pandemia em 2020 muito superior ao de outros países emergentes, que garantiu uma performance melhor que algumas economias – embora abaixo da média global. Em 2021, a crise hídrica nacional jogou contra o crescimento. Em 2022, o pacote de gasto eleitoral empurrou o PIB para cima, mas de forma temporária. “Boa parte do crescimento neste ano foi inflada pelo ciclo político eleitoral doméstico. Infelizmente, alguns desses fatores são fortuitos e vão cobrar a fatura logo adiante. Em 2023, a gente já volta a crescer menos que o mundo”, afirma Borges.
“A gente pode mudar isso. Vai ter de restabelecer a sustentabilidade fiscal com um novo arcabouço. Pode aprovar uma reforma tributária no ano que vem. Mas hoje é um cenário que mostra uma deterioração importante para o Brasil.” Segundo levantamento do economista Sérgio Gobetti com base em dados e estimativas do FMI, nos quatro anos do atual mandato presidencial (2019-2022), o crescimento médio anual da economia brasileira deve ficar em 1,16%, abaixo da média mundial, projetada em 1,95%. Considerando uma amostra de 50 economias no período 2019-2021, o Brasil está na 32ª posição em relação ao crescimento econômico.
Em um período de 20 anos, o país só cresceu acima da média global no período 2007-2010 (segundo governo Lula), quando ficou na 12ª posição entre as mesmas economias. O pior desempenho brasileiro foi no período 2015-2018 (período Dilma/Temer), quando o país enfrentou uma das suas maiores recessões e ficou na lanterna do ranking.
Gobetti afirma que a economia cresceu nos últimos anos abaixo da sua capacidade, um sinal de que o problema não está ligado somente à questão da produtividade, que reduz o potencial de crescimento do país. “Para o crescimento sustentado mais elevado, a produtividade é um limitador. Mas, para o baixo crescimento dos últimos anos, não é. Aí você tem de atribuir a conta à política econômica.”
Folhapress