Observar o perfil do motorista, compartilhar a localização com alguém de confiança e ficar atenta a qualquer comportamento diferente. Você que é mulher provavelmente tem esses hábitos quando utiliza um carro por aplicativo. É um "manual de autoproteção" feito de forma automática, que muitas não sabem nem dizer quando aprenderam a executar.
Mesmo que esse meio de deslocamento tenha ganhado adesão pela comodidade e custo-benefício frente ao transporte público coletivo, a parcela feminina do público o utiliza sob a cultura do medo e da insegurança.
Isso se reflete em números: 56% das mulheres do Ceará se sentem inseguras no transporte individual por aplicativo — a exemplo de Uber e 99. E o estupro é a violência mais temida nesse espaço para a maioria das cearenses.
A informação consta na pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, que a partir deste mês publica a série de reportagens “Mulher Coragem”. O especial é todo baseado no documento, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).
A pesquisa também revela que o receio de ser vítima de violências sexuais é ainda maior na faixa etária de 16 a 24 anos, chegando a 64% das menções, e de 25 a 34 anos, representando 63%. No recorte por regiões do Ceará, o medo do estupro atinge os maiores percentuais no Centro-Sul/Sul do Estado (54%) e na Região Metropolitana excluindo Fortaleza (53%).
O estudo encomendado ouviu 2.032 meninas e mulheres de 16 anos ou mais de idade, moradoras de 77 municípios cearenses, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.
O comportamento defensivo e a atenção permanente das mulheres existem porque sabemos que estamos sujeitas à imprevisibilidade, em uma sociedade machista. Em um carro por aplicativo, a passageira ou a motorista está vulnerável a olhares maliciosos, toques abusivos ou abordagens dissimuladas. É um estado de alerta que não cessa para enfrentar algo que deveria ser comum: se deslocar na cidade.
“Nós [mulheres] estamos o tempo inteiro tentando perceber o que está ao nosso redor. Os transportes não são pensados de forma que as mulheres possam ter mais comodidade e, ao mesmo tempo, [não possuem] formas mais eficientes de denunciar a violência, os abusos, as importunações sexuais que ocorrem nesses espaços”, analisa a socióloga Jennifer Dantas, professora do Instituto Federal do Ceará (IFCE) Campus Canindé.
O temor de ser vítima de uma violência sexual passa ainda pela ideia de poder que o homem acredita exercer sobre a mulher. “Tem a questão cultural, do machismo, de querer culpar a mulher, seja pela roupa, pelo local, porque bebeu. O que a gente reforça é que não é culpa da vítima. É o agressor. O crime sexual é muito uma questão de poder. Ele acha que pode submeter a mulher a isso”, detalha Rebeca Cruz, delegada e diretora-adjunta do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV) da Polícia Civil do Ceará.
Conforme o Código Penal Brasileiro, o estupro — crime contra a dignidade sexual — é caracterizado pelo cometimento, mediante violência ou grave ameaça, de conjunção carnal ou de outro ato libidinoso. “É qualquer ato, não só a conjunção carnal. Pode ser passar a mão nas partes íntimas, agarrar à força, sem consentimento da vítima”, cita a delegada.
Com informações do Diário do Nordeste