Uma das teses mais repetidas nos comentários das redes sociais sustenta que Ciro Gomes venceria com relativa facilidade o atual governador Elmano de Freitas. Essa leitura, porém, simplifica demais um tabuleiro que é complexo, denso e longe de oferecer atalhos. A verdade é que o caminho não é fácil, nem será, para nenhum dos dois lados.
Essa análise não nasce de manchetes recentes ou de humores passageiros, mas do olhar de quem acompanha atentamente a política cearense há mais de uma década. Ciro Gomes, há muitos anos, deixou a política estadual para mirar voos mais altos e, nesse movimento, entregou ao irmão mais novo, Cid Gomes, a condução do jogo local. Cid não apenas assumiu essa missão como a executou com precisão cirúrgica. Construiu uma engrenagem política de força considerável, costurou alianças robustas, ocupou quase a totalidade das prefeituras e espalhou lideranças por todo o estado, ampliando seu alcance eleição após eleição. Hoje, talvez o maior desafio de Ciro seja encarar exatamente a estrutura erguida pelas próprias mãos do irmão. Um desses lances irônicos que o destino aplica sem pedir licença.
Camilo Santana, atual principal liderança desse projeto, não foi seu arquiteto. Herdou a obra já de pé e dedicou-se a mantê-la sólida. O mesmo fez Elmano de Freitas, que recebeu essa herança política e trabalha para conservá-la coesa em torno do seu projeto de reeleição. Até aqui, tem conseguido. Nomes como Capitão Wagner, André Fernandes e Roberto Cláudio já testaram a força desse grupo governista e saíram derrotados. Eles sabem, talvez melhor do que ninguém, que um poder enraizado, bem costurado e distribuído pelo território não pode ser tratado como detalhe.
Ciro Gomes tem, sim, chances reais de vitória. Seu potencial de mobilização e de construção de uma grande campanha é inegável. Mas o jogo está longe de estar decidido. Romper essa muralha de poder não é tarefa simples. Na verdade, há apenas uma figura capaz de desmontar essa estrutura com autoridade suficiente para fazê-lo: o seu próprio criador, Cid Ferreira Gomes.
Por Micael Sousa, no Xadrez Político