sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Novo Ano Nasceu

Publicado nesta quinta-feira (01), de janeiro, 
Por Flávio Themotheo Jr
Prezados, o ano de 2026 mal abriu os olhos. Faz poucas horas que ele chegou, ainda com aquela inocência de recém-nascido, trazendo na bagagem os votos tradicionais de boa sorte e fartura, mas também sussurrando, com a discrição que a prudência recomenda, que devemos manter os olhos bem abertos.

Neste momento de alvores, um novo ciclo se desenha no horizonte, carregando consigo as esperanças seculares da raça humana. Há, em cada um de nós, essa convicção teimosa e serena de que as guerras encontrarão seu termo, e que as nações, num surto de lucidez, buscarão a paz e o desenvolvimento partilhado. É com este nascimento que o mundo renova seu fôlego, depositando no calendário virgem o desejo de um despertar para o que é essencial: a solidariedade, a empatia, o abraço.

Entretanto, nestas nossas plagas de Pindorama, a poesia do calendário convive, de forma indissociável, com a prosa da contabilidade. O vivente, mal termina o brinde do espumante, deve ajustar o foco da realidade. Pois, com o nascimento do ano, chegam também os presentes de grego que a burocracia, em sua infinita sabedoria, preparou para o nosso “deleite”.

Neste 2026, a recomendação é clara: cuidem do bolso com o mesmo zelo que cuidam da alma, pois a mordida promete ser generosa.

Vejamos o cenário. A partir de ontem, Pindorama inaugurou a era do IBS e do CBS. Foram criados, dizem os teóricos de plantão, para facilitar nossa vida e desatar os nós do nosso sistema tributário barroco. Fala-se também no IVA, que aos poucos se consolidará. Mas, despindo a teoria de suas vestes de gala, o que temos na prática? O IVA prepara-se para aportar com um percentual “módico” de 27%. Uma bagatela, diriam os irônicos.

Para o empresário e o prestador de serviços, a mudança é um exercício de aritmética criativa. O velho PIS/COFINS, que no sistema cumulativo perfazia 3,65%, cede lugar ao CBS com um percentual “simplório” de 8,5% a 9%. E não podemos esquecer a gentileza dos membros de Wonderland, que nos brindaram com a PL 128/25. Na prática, o prestador de serviço, que hoje presume uma margem de lucro de 32%, passará a ser tributado sobre uma base de 35,2%. É a modernização chegando via boleto. Que presente para o ano que se apresenta.

O que posso dizer, meus prezados leitores, com a serenidade que o cargo e a vida me impõem, é que o novo ano já nasce com uma herança pesada. Ele vem ao mundo carregando um déficit de R$ 83,5 bilhões, acumulado de janeiro a novembro de 2025.

Sim, o ano é um bebê que já nasce devendo. E o que se cobra não é apenas valor em moeda corrente, mas o próprio futuro. 2026 mal respirou e já tem parte de seus dias hipotecados pela falta de austeridade do passado recente.

Em outros momentos, ao longo deste ciclo que se inicia, teremos tempo para conversar sobre os mecanismos que estrangulam quem produz, sufocam quem presta serviço e asfixiam quem ousa gerar emprego nestas terras. Hoje, contudo, fiquemos com o alerta elegante.

Seja bem-vindo, 2026! Que a sua estadia seja leve. E esperamos, todos nós cidadãos de Pindorama, que os magos de Wonderland permitam que você cresça minimamente. Que ao menos a esperança, esse último refúgio dos justos, não seja também taxada na fonte.

O Estado

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Faça seus comentários com responsabilidade, não nos responsabilizamos por comentários de terceiros.