Conquista rara registrada pelo Detran-PR envolve mais de cem aulas práticas, sete processos e aprovação após tentativas sucessivas, em um percurso que chama atenção pela idade, mas se sustenta no cumprimento rigoroso das regras de habilitação e nos dados oficiais do trânsito paranaense.
Aos 91 anos, a aposentada Vanda Davanso Gnann concluiu o processo para obter a primeira Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no Paraná depois de realizar mais de 100 aulas práticas, repetir etapas e ser aprovada ao fim de sete processos formais conduzidos pelo Detran.
Moradora de Ibiporã, no Norte do estado, ela cumpriu integralmente as mesmas exigências aplicadas a qualquer candidato, incluindo prova teórica e exame prático de direção, conforme registro divulgado pelo Detran-PR ao apresentar o caso como incomum pela idade.Eletrónica
Segundo o órgão estadual, não havia, até aquele momento, registros de pessoas que tivessem tirado a primeira habilitação nessa faixa etária no Paraná, o que levou servidores e examinadores a acompanharem o percurso com atenção desde as primeiras tentativas.
A CNH de Vanda foi emitida em 27 de setembro de 2016, poucos dias depois de ela completar 91 anos, encerrando um processo longo que reuniu aulas, avaliações sucessivas e retornos periódicos às etapas exigidas pelo sistema de trânsito.
Processo de habilitação aos 91 anos chamou atenção no Paraná
Embora a repercussão pública tenha se concentrado na idade da candidata, o que sustenta a história é a sequência verificável de etapas, tentativas e avaliações técnicas que marcaram o processo até a aprovação final.
Ao longo desse percurso, Vanda enfrentou reprovações, refez exames e retornou às provas sempre que necessário, até cumprir o requisito final e obter aprovação na avaliação prática de direção.
De acordo com o próprio Detran-PR, o principal obstáculo ao longo das tentativas não esteve relacionado ao desconhecimento das regras ou das etapas do exame, mas ao nervosismo apresentado no momento da prova prática.
Na parte teórica, por outro lado, o desempenho foi considerado elevado pelos examinadores que acompanharam a avaliação, indicando domínio do conteúdo exigido para a habilitação.
Segundo o examinador Marcelo de Castro Souza, da Ciretran de Ibiporã, Vanda acertou 29 de 30 questões no exame teórico, resultado que contrastou com as dificuldades enfrentadas na etapa prática.
As reprovações anteriores, conforme o relato do órgão, ocorreram em função da insegurança típica do exame e não por falta de conhecimento técnico, até que a candidata conseguiu avançar e concluir o processo.Eletrónica de veículos
Ao comentar o caso, o então diretor do Detran-PR, Marcos Traad, definiu a trajetória como incomum e ressaltou que todos os testes e procedimentos obrigatórios foram aplicados sem qualquer flexibilização associada à idade. “A história da dona Vanda é muito incomum”.
Não existe idade máxima para tirar a primeira CNH
Casos como esse costumam levantar dúvidas fora do ambiente técnico do trânsito, especialmente sobre a existência de uma idade máxima para começar a dirigir ou para obter a primeira habilitação.
As regras brasileiras, no entanto, não estabelecem um limite etário automático que impeça a emissão da primeira CNH ou obrigue alguém a deixar de dirigir apenas por ser idoso.
O critério central permanece sendo a aptidão comprovada nas avaliações exigidas, incluindo exames teóricos, práticos e de aptidão física e mental, aplicados conforme os parâmetros previstos na legislação.
Com o avanço da idade, o que se altera é a periodicidade do exame médico que condiciona a validade do documento, funcionando como um acompanhamento mais frequente das condições individuais do condutor.
Pela legislação em vigor, o prazo de validade é de dez anos para motoristas com menos de 50 anos, de cinco anos para quem tem entre 50 e 69 e de três anos a partir dos 70, podendo ser reduzido por indicação médica.
Foi dentro dessa lógica que o Detran-PR contextualizou o caso de Vanda, reforçando que a habilitação pode ser obtida e renovada enquanto o condutor demonstrar, de forma satisfatória, as habilidades exigidas.
Nesse cenário, a idade passa a ser um parâmetro regulatório de acompanhamento e não um fator isolado capaz de impedir o acesso ao direito de dirigir.
Motoristas com mais de 90 anos são minoria no estado
Após a emissão da CNH, Vanda passou a integrar um grupo estatisticamente pequeno no universo de condutores do Paraná, composto por pessoas com mais de 90 anos de idade.
Segundo levantamento citado pelo Detran-PR, motoristas nessa faixa etária representavam apenas 0,01% do total de condutores registrados no estado naquele período.
O número correspondia a 815 pessoas entre cerca de 5,4 milhões de motoristas cadastrados, revelando a raridade do recorte etário dentro do sistema estadual de trânsito.
Ainda de acordo com o órgão, 92% dos condutores com mais de 90 anos eram homens, o que também contribuiu para que o caso ganhasse visibilidade adicional.
Esse conjunto de dados ajuda a explicar por que a trajetória chamou atenção, tanto pela baixa representatividade numérica quanto pelo perfil predominante de gênero entre os motoristas mais idosos.
Compra do carro marcou início da autonomia prática
A aprovação no processo de habilitação não ficou restrita à obtenção do documento, já que, logo após receber a CNH, Vanda comprou um carro com a intenção de utilizá-lo no dia a dia.
Segundo relatos divulgados pelo Detran-PR, o objetivo era realizar deslocamentos e passeios, conectando a habilitação recém-conquistada a uma rotina mais autônoma.
Em um dos trechos divulgados pelo órgão, ela resumiu o plano após a aprovação ao afirmar: “Eu vou dirigir sim, quero passear”.
Nesse contexto, o veículo deixa de ser um detalhe secundário e passa a representar o desdobramento prático do processo, ao transformar o documento em mobilidade concreta.
A autarquia também registrou que a família, inicialmente resistente à ideia, mudou de posição depois da aprovação e chegou a organizar uma comemoração para marcar o resultado.
No acompanhamento local, a trajetória mobilizou profissionais envolvidos nas etapas, incluindo a equipe da autoescola responsável pela formação prática da candidata.
A proprietária do estabelecimento citado pelo Detran-PR, Neusa Maria Armelin, atribuiu o resultado ao compromisso e ao ritmo constante de aprendizado demonstrado ao longo das aulas.
“A disposição que ela tem em aprender é impressionante”.
Com o percurso documentado em aulas, provas e repetição de exames, o caso de Vanda reforça um aspecto central do sistema de trânsito brasileiro, no qual a CNH não é concedida por expectativa, mas por avaliação técnica.
Ao mesmo tempo, a história expõe como o tema idade e direção costuma ser tratado de forma simplificada, quando, na prática, envolve critérios objetivos, prazos de validade e reavaliações médicas periódicas.
Em um país que envelhece e discute mobilidade para além do transporte público, como as regras e os exames de habilitação podem equilibrar, ao mesmo tempo, segurança viária e autonomia de quem decide dirigir mais tarde?