Fevereiro chega embalado pelo Carnaval e pela maratona de bloquinhos, trios elétricos e encontros improvisados que fazem do beijo um dos gestos mais comuns da festa. No meio da euforia, porém, especialistas alertam que o contato direto entre lábios e saliva pode favorecer a transmissão de infecções virais e bacterianas, sobretudo diante de grande aglomeração.
Segundo a infectologista Ana Rachel de Seni Rodrigues, da Hapvida, a boca é uma das principais portas de entrada de microrganismos. Por concentrar funções essenciais dos sistemas digestivo e respiratório, como mastigação, deglutição e respiração, a cavidade oral oferece um ambiente naturalmente úmido, aquecido e vascularizado, condições que facilitam tanto a sobrevivência quanto a disseminação de vírus e bactérias. Além disso, a presença de lesões, como aftas e gengivites, rompe a barreira de proteção e eleva ainda mais o risco de infecções.
Entre as patologias mais conhecidas, está a mononucleose infecciosa, causada pelo vírus Epstein-Barr, popularmente chamada de “doença do beijo”. De acordo com Ana Rachel, a transmissão ocorre com facilidade pela saliva e pode provocar febre, dor de garganta, mal-estar e cansaço prolongado. Da mesma forma, herpes simples, dos tipos 1 e 2, responsáveis pelas lesões labiais e em outras partes do corpo, também podem ser transmitidos mesmo na ausência de feridas visíveis, já que o vírus pode ser eliminado por pessoas sem sintomas através da mucosa da cavidade oral.
Vírus respiratórios, como os da gripe, do resfriado comum e da covid-19, também entram na lista de riscos importantes, especialmente em grandes aglomerações. Apesar de a principal forma de transmissão ser respiratória, como tosse ou espirro, a saliva atua como um veículo direto de contato. Além destes, Ana Rachel destaca o citomegalovírus, transmitido pela saliva, e certas bactérias da cavidade oral que podem causar desde dores de garganta até quadros severos, como a meningite meningocócica. Embora menos frequentes, a sífilis e o HPV também podem ser transmitidos pelo beijo caso existam lesões ativas. Segundo a médica, o risco é proporcional ao tempo de contato e à carga viral ou bacteriana, ocorrendo mesmo quando o transmissor ainda não apresenta sintomas evidentes.
Durante o Carnaval, algumas medidas simples ajudam a reduzir riscos. A recomendação principal é evitar o contato com múltiplos parceiros e não compartilhar itens de uso pessoal, como copos e garrafas. Além disso, é fundamental manter a higiene oral em dia (escovação regular dos dentes e uso de fio dental) e estar com a vacinação atualizada.
Ana Rachel reforça que o beijo é parte da vida afetiva e não deve ser um tabu; o segredo está em equilibrar diversão e consciência. Caso surjam sintomas como febre persistente, dor de garganta ou lesões orais após a folia, a orientação é buscar avaliação médica imediata. Afinal, entre confetes e beijos, a saúde também deve entrar na folia.”