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Que atividade física faz bem e ajuda a viver mais já não é novidade. A relação entre movimento e longevidade está bem estabelecida na literatura científica. Mas, se o benefício é consenso, a dúvida persiste é: existe algum tipo de exercício “melhor” quando o assunto é prolongar a vida?
Foi para responder essa pergunta que um grupo de pesquisadores decidiu ir além do volume total de atividade física e mergulhar nas modalidades específicas. O estudo, publicado na BMJ Medicine, acompanhou por mais de três décadas 111.467 homens e mulheres inicialmente livres de doenças crônicas graves.
A cada dois anos, os participantes informavam quanto tempo dedicavam a atividades como caminhada, corrida, ciclismo, natação, musculação, esportes de raquete, remo, calistenia e até subir escadas. Com isso, os pesquisadores puderam analisar o impacto de cada modalidade.
Quanto mais, melhor
O padrão já esperado apareceu: quanto maior volume total de atividade física, menor a mortalidade por todas as causas, doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias.
Mas o detalhe interessante está no ritmo desse benefício. O maior ganho aconteceu quando a pessoa deixou de ser sedentária. Ou seja, sair do zero já reduziu bastante o risco. A partir daí, continuar aumentando o tempo ou a intensidade do exercício trouxe vantagens adicionais, mas de forma mais gradual.
Em termos simples: começar a se mexer faz uma grande diferença. Depois, manter a regularidade é o que sustenta os benefícios ao longo do tempo.
Caminhar já muda o jogo
Entre as modalidades analisadas, a maioria mostrou associação significativa com menor risco de morte. No grupo mais ativo em cada categoria, os resultados para mortalidade por todas as causas foram:
-Caminhada: redução de 17%
-Corrida: redução de 13%
-Tênis, squash ou raquetebol: redução de 15%
-Remo ou calistenia: redução de 14%
-Musculação: redução de 13%
-Subir escadas regularmente: redução de 10%
-Natação: redução de 7%
-Ciclismo: redução de 4%
Para causas específicas, algumas modalidades se destacaram ainda mais. Corrida, esportes de raquete e treinamento de força mostraram associações particularmente consistentes com menor mortalidade cardiovascular e respiratória.
No entanto, segundo os cientistas, essa relação não foi linear, já que os benefícios do volume total de atividade física tenderam a se estabilizar a partir de cerca de 20 MET-horas por semana, o que equivale, aproximadamente, a 300 minutos de atividade moderada, valor que está dentro da faixa recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta entre 150 e 300 minutos semanais de atividade moderada para adultos.
E se a resposta for variar?
Um dos pontos mais interessantes do estudo foi olhar não só para quanto as pessoas se exercitavam, mas para quantos tipos diferentes de atividade elas praticavam. Os pesquisadores criaram uma espécie de “contador de variedade”. Em vez de avaliar apenas o total de tempo dedicado ao exercício, eles observaram se a pessoa fazia só uma modalidade ou se combinava duas, três ou mais ao longo da rotina.
O resultado mostrou que, mesmo entre pessoas que praticavam a mesma quantidade total de atividade física, aquelas que variavam mais os exercícios tiveram um risco 19% menor de morrer por qualquer causa, em comparação com quem fazia sempre a mesma atividade. Além disso, apresentaram uma redução de 13% a 14% no risco de morte por doenças cardíacas, respiratórias, câncer e outras causas.
“É um achado bastante novo mostrar que, para um mesmo nível total de atividade física, praticar mais tipos de exercício pode oferecer benefícios adicionais para a longevidade”, afirmou Hu. “Isso significa que, embora manter um alto nível de atividade física total continue sendo o mais importante, combinar diferentes modalidades — que trazem benefícios complementares à saúde, pode ser ainda mais eficaz para prevenir mortes prematuras.”
A explicação provável é que cada tipo de exercício trabalha o corpo de uma forma diferente. Caminhar ou correr fortalecem o sistema cardiovascular, a musculação preserva massa muscular e força e esportes de raquete exigem agilidade e coordenação. Quando esses estímulos se somam, os efeitos podem se complementar.
“Descobrimos que todas as atividades incluídas neste estudo apresentam esse limite, o que significa que não há ganhos adicionais além de certa quantidade de exercício. Portanto, combinar diferentes atividades pode ser mais eficaz para obter benefícios à saúde, desde que o nível total de atividade seja mantido”, disse Yang Hu, pesquisador do Departamento de Nutrição de Harvard e autor do estudo.
O que considerar antes de concluir
O estudo é observacional. Isso significa que os pesquisadores acompanharam as pessoas ao longo do tempo e observaram associações, mas não fizeram uma intervenção direta. Em outras palavras: os dados mostram uma relação entre exercício e menor risco de morte, mas não permitem afirmar com 100% de certeza que foi aquele exercício, isoladamente, o responsável pelo resultado.
Outro ponto é que as informações sobre atividade física foram fornecidas pelos próprios participantes, por meio de questionários. Embora sejam instrumentos validados, sempre existe a possibilidade de erro de memória ou de superestimar o quanto se pratica.
Além disso, a maioria dos participantes era formada por profissionais de saúde, predominantemente brancos. Isso pode limitar a aplicação dos resultados para populações com perfis sociais, culturais ou econômicos diferentes.
Se a pergunta era “qual é o melhor exercício para viver mais?”, o estudo sugere uma resposta menos simplista. Caminhar já faz diferença. Correr também. Fortalecer os músculos, subir escadas, praticar esportes, tudo isso apareceu associado a benefícios. Mas o conjunto parece ser mais importante do que escolher apenas uma modalidade.
Por Victória Ribeiro